Diz a tradição que em Janeiro se canta pelas ruas. Grupos de pessoas reúnem-se junto às portas dos lares de conterrâneos, cantando músicas alusivas ao nascimento de Jesus. Em troca da boa nova cantada, recebiam a oferta de sobras natalícias, ou um lanche com o que de melhor cada família pode oferecer. Mas será cantar os reis ou cantar as Janeiras? Serão a mesma coisa?
O professor Ramiro Fernandes dedicou os últimos 25 anos a fazer uma recolha de cantares de janeiras por todas as freguesias do concelho. No livro «Arouca a cantar as janeiras» constam 154 melodias, conseguidas através de entrevistas a várias pessoas do concelho, com idades entre os 50 e os 96 anos! Esta obra de cariz etnográfico foi apresentada no passado dia 6 de Janeiro, no Globo D’Ouro, com casa cheia.
Este trabalho árduo — que, garante, não voltaria a repetir — só vale porque enriquece a cultura arouquense. E muita da recolha feita ter-se-ia perdido se Ramiro Fernandes não tivesse posto «mãos à obra», pois muita gente que entrevistou morreu entretanto.
Mas se esta recolha é sinónimo de preservação da cultura e identidade do povo arouquense, esta preservação só tem sentido se for perpetuada. Nada que não se consiga. No panorama cultural arouquense, a Escola de Música de Moldes é uma das associações que assegura que a tradição das janeiras não se perca.
Na equação da soma do trabalho e paixão de Ramiro Fernandes pela etnografia de Arouca e o empenho da Escola de Música de Moldes em dar continuidade ao trabalho, faltava apenas um apoio para que o resultado fosse o livro que se pode encontrar na Escola de Música de Moldes. Mas numa terra tão fértil em coisas boas, não seria este um obstáculo. A ADRIMAG apoiou em 60% a impressão do cancioneiro, que agora é oferecido na compra de um cd onde estão as melodias das recolhas.
Se d. Sancho I, pai de Santa Mafalda, foi dos primeiros trovadores de Portugal, então a padroeira de Arouca não podia ter encontrado outro pouso se não entre gentes inteligentes e com aptidão para a música.
Cláudia Oliveira